“A ociosidade é o enterro de um homem vivo. Uma pessoa ociosa é tão inútil para quaisquer propósitos de Deus e do homem que é como um morto, indiferente às mudanças e necessidades do mundo; e ele vive somente para gastar seu tempo e comer os frutos da terra. Como um verme ou um lobo, quando sua hora chega, ele morre e perece, e nesse meio-tempo não existe mais nada. Não ara nem carrega fardos: tudo o que faz é inútil ou prejudicial.” (PIKE, 2023, p.127)
No Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), especialmente em um dos graus centrais da Loja de Perfeição, esse trecho de Moral & Dogma é mais do que uma advertência — é uma chamada à responsabilidade. O maçom é lembrado de que não está aqui apenas para contemplar o mundo, mas para transformá-lo. A ociosidade, portanto, é vista como um afastamento do propósito iniciático e da própria dignidade do ser humano. Viver sem agir é desperdiçar a dádiva do tempo. E não deixar marcas é o mesmo que passar pela existência sem ter realmente vivido.
Como você deseja ser lembrado quando já não estiver mais aqui?
Pelas ideias que defendeu? Pelas obras que construiu? Pelos valores que deixou vivos nos outros?
A tradição iniciática nos ensina que o tempo é finito, mas o legado não precisa ser. Acreditamos, muitas vezes, que a vida é longa — e deixamos para depois aquilo que realmente importa. Quando percebemos, já é tarde. A metade da caminhada ficou para trás e muitos sonhos foram esquecidos na pressa ou no medo. E quase sempre, o que faltou não foi tempo — foi coragem.
Pensamentos, palavras e ações são os três pilares da expressão humana. Pensar é essencial, mas não suficiente. Ideias que não ganham corpo se perdem. Verdades que não são ditas, desaparecem. E ações que não se concretizam, tornam-se espaço vazio onde o mundo decide por nós. Porque o tempo não espera — ele constrói ou destrói com aquilo que oferecemos a ele.
Na Maçonaria, aprendemos que nossa jornada é coletiva. Nossos antecessores deixaram muito mais do que símbolos e tradições: deixaram exemplos, princípios e estruturas que sustentam o presente. Honrá-los vai além da memória. É dar sequência ao que começaram. É assumir o lugar que nos cabe na corrente dos construtores — aqueles que erguem templos internos e externos, com consciência, disciplina e senso de propósito.
No grau em que meditamos sobre a finitude da vida e a permanência dos nossos atos, compreendemos que agir é mais do que um dever: é o que nos torna vivos, mesmo depois de partirmos. A coragem de colocar no mundo aquilo que acreditamos é o que nos conecta aos que vieram antes e aos que ainda virão. Porque viver, para o verdadeiro Iniciado, não é apenas existir — é continuar construindo, mesmo na ausência. E essa é a maior homenagem que podemos prestar àqueles que ajudaram a escrever a história da Maçonaria e da humanidade.
Referência:
PIKE, Albert. Moral & Dogma [1871]. Tradução e notas de Kennyo Ismail. Brasília: No Esquadro, 2023.

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