Justiça

por pixabay/lvymusic

“A iniquidade muitas vezes parece prosperar, mas o seu sucesso é a sua derrota e vergonha. Depois de um longo tempo, chega o dia do acerto de contas, tanto para a nação quanto para o indivíduo. O patife engana a si mesmo. O avarento, matando de fome o corpo de seu irmão, morre de fome também a sua própria alma, e na morte sairá de seu grande estado de injustiça, pobre, nu e miserável.” (PIKE, 2023, p.868)

A verdadeira Justiça não se concretiza apenas por meio da igualdade formal, mas, sobretudo, pela equidade. Enquanto a igualdade consiste em oferecer as mesmas condições e regras a todos, a equidade vai além: ela reconhece que os indivíduos partem de realidades desiguais, com limitações, vulnerabilidades e contextos distintos. Dessa forma, busca-se garantir que cada pessoa tenha acesso efetivo às mesmas oportunidades, ajustando os meios e recursos de acordo com suas necessidades específicas. A equidade, portanto, não nivela as pessoas, mas nivela as oportunidades.

Por isso, torna-se imprescindível que a prosperidade, o desenvolvimento e a dignidade sejam assegurados de forma justa, considerando as múltiplas dimensões sociais, econômicas e culturais. Uma sociedade verdadeiramente justa não se edifica tratando todos de maneira uniforme, mas sim acolhendo as diferenças e reparando as distorções que historicamente geraram desigualdade, exclusão e sofrimento.

Ao longo da história da humanidade, vemos que esse ideal de Justiça plena tem sido uma aspiração constante, mas, muitas vezes, também uma promessa corrompida. A Justiça, que deveria ser instrumento de equilíbrio e harmonia social, frequentemente é sequestrada por interesses particulares, ideologias sectárias e pelo uso perverso do poder. Assim, em vez de servir ao bem comum, ela é distorcida para atender aos caprichos de grupos dominantes ou para perpetuar estruturas de opressão. Esse fenômeno caracteriza aquilo que se pode chamar de corrupção da Justiça: quando seus agentes, que deveriam ser guardiões da verdade e do bem coletivo, se tornam cúmplices da iniquidade.

Entretanto, a própria História demonstra que a injustiça, por mais que se imponha temporariamente, não é sustentável. Mais cedo ou mais tarde, aqueles que desvirtuaram a Justiça acabam sendo por ela mesmos julgados e vencidos, e o ciclo de restauração recomeça. Este é um movimento recorrente nas sociedades: períodos de opressão e desequilíbrio são inevitavelmente seguidos por movimentos de reparação, de busca pela verdade e pela retomada dos princípios que sustentam a ordem justa.

No âmbito da Maçonaria, especialmente no Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), esse tema é tratado de forma profunda e simbólica. Ao longo de sua trajetória, o maçom é levado a refletir sobre as múltiplas faces da Justiça, desde sua forma deturpada — a “justiça cega”, que muitas vezes ignora a equidade e se presta a servir interesses mesquinhos — até a percepção da iniquidade e de como ela corrói as estruturas sociais, conduzindo a abusos de poder, degradação moral e colapso coletivo.

O ponto culminante desse aprendizado se dá na construção simbólica do “Tribunal da Verdade”, em que o maçom, já em graus elevados, é chamado a assumir a responsabilidade de ser não apenas um defensor, mas um guardião da Justiça. Esse compromisso transcende os limites do Templo maçônico e se projeta para a vida cotidiana, exigindo que ele atue como um agente de transformação social, promovendo a retidão, a integridade e o equilíbrio onde quer que esteja.

Para que esse ideal seja plenamente realizado, é indispensável que o Mestre dos Altos Graus do REAA domine, de forma profunda, os princípios e os fundamentos da Justiça. Esse domínio não é apenas intelectual, mas também moral e espiritual, pois representa a culminação do propósito iniciado no grau de Aprendiz: o desbastar da pedra bruta, que simboliza o trabalho de lapidação do próprio ser — a superação das paixões, dos vícios e da ignorância. Assim, o maçom se torna capaz de não apenas compreender a Justiça, mas de vivê-la e praticá-la, tornando-se instrumento de luz e equilíbrio em um mundo constantemente ameaçado pela sombra da iniquidade.


Referência:
PIKE, Albert. Moral & Dogma [1871]. Tradução e notas de Kennyo Ismail. Brasília: No Esquadro, 2023.

Por Rogério Mauri, 33


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