Quando perdemos a fé.

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“Sem uma crença Nele, a vida é miserável, o mundo fica escuro, o Universo é despojado de seus esplendores, o laço intelectual com a natureza é quebrado, o encanto da existência é dissolvido, a grande esperança do ser é perdida; e a mente, qual uma estrela arrancada de sua esfera, vagueia pelo deserto infinito de suas concepções, sem atração, tendência, destino ou fim.”

— Albert Pike, Moral & Dogma (2023, p. 261)

Em algum momento da existência, todos nos deparamos com isso. A perda da fé não é um acidente, tampouco um desvio: é parte do caminho. Constitui um estágio necessário do processo humano, quase um mecanismo inscrito na própria estrutura da consciência que desperta.

Nesse ponto, o olhar se amplia. Passamos a perceber, com clareza quase dolorosa, a simplicidade da vida, a harmonia silenciosa da criação, a beleza que se sustenta sem esforço. Contudo, ao voltar o olhar para o homem — para os que nos cercam e também para os que estão distantes — e para o mundo que ele edificou, somos confrontados por uma realidade de outra ordem: a complexidade artificial, erguida sobre o medo, a ignorância, a vaidade e a sede de poder. É então que a ruptura acontece. O espanto se volta para dentro, e reconhecemos, com inquietação, que nós mesmos estamos imersos nesse cenário de sombras. Surge a pergunta inevitável: até que ponto somos cúmplices do caos que condenamos?

Albert Pike, ao escrever Moral e Dogma, especialmente na exposição do Grau XV, desnuda o próprio coração. Ali transparece o estado de espírito de um homem que contempla o mundo e seus irmãos com um misto de lucidez, desalento e amarga frustração. A leitura revela um sentimento profundo de injustiça, decepção e um quase tangenciar do ódio — não um ódio vulgar, mas o sofrimento de quem percebe o abismo entre o que o mundo é e o que ele deveria representar. Pike não esconde o peso da travessia pelas trevas, nem minimiza o risco que corre aquele que cai, aquele que, por um tempo, perde a fé.

Talvez este seja, agora, o seu momento. Um estado de desencanto em que o mundo parece vazio de sentido, em que o sagrado se cala e o próprio Criador parece ocultar o rosto. É a chamada noite escura da alma, quando somos lançados ao turbilhão da incerteza e do sofrimento. Mas trata-se de um sofrimento distinto, mais sutil e profundo: não apenas a dor da perda, mas a dor da consciência que já não consegue se iludir.

No entanto, é precisamente nesse ponto que a tradição iniciática se manifesta. Como alguém que, mesmo vacilante, jurou fidelidade a um princípio maior, Pike reencontra o fio condutor. Ele aponta que essa descida não é um castigo, mas uma necessidade. A travessia pelas sombras é condição para a maturação do espírito e para a compreensão mais plena do amor divino — um amor que não se revela na ingenuidade, mas na lucidez reconciliada.

Nos graus subsequentes do Capítulo Rosa-Cruz, essa jornada se aprofunda. O homem é conduzido ao encontro de suas próprias contradições, preparado para contemplar, ainda que de relance, no Kadosh, a Nova Jerusalém — símbolo do Templo interior reconstruído, não mais idealizado, mas conscientemente edificado.

Assim, se você se encontra nesse processo, saiba: há esperança. O que parece desordem é, em um plano mais elevado, movimento. O que se vive como abandono é, muitas vezes, pedagogia do espírito. Tudo caminha conforme uma ordem mais alta, regida por uma força benevolente que ultrapassa nossa compreensão imediata.

E quando o caminho da Luz se revelar novamente — não como promessa ingênua, mas como escolha consciente — você estará mais preparado. Pronto não apenas para crer, mas para compreender; não apenas para pertencer, mas para construir. Então, poderá integrar, em verdade, a grande fraternidade dos iniciados: aqueles que, tendo atravessado a noite, trabalham com humildade e lucidez na edificação de um Mundo Melhor.

“Então o que nos causou provocações nos renderá triunfos; e o que fez nosso coração doer nos encherá de alegria; e sentiremos então que lá, assim como aqui, a única felicidade verdadeira é aprender, avançar e melhorar; o que não poderia acontecer, a menos que tivesse se iniciado com erro, ignorância e imperfeição. Nós devemos passar pelas trevas, para alcançar a luz”

— Albert Pike, Moral & Dogma (2023, p. 262)


📚 Referência:
PIKE, Albert. Moral & Dogma. Tradução de K. Ismail. Brasília: No Esquadro, 2023.

Por Rogério Mauri, 33


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