A Forja

por pixabay/MeeGiStudio

No primeiro artigo desta série, apresentei o conceito que denominei O Container — um campo simbólico de potencialidade, um espaço anterior à própria experiência concreta, no qual residem todas as formas ainda não manifestadas. Ali, a realidade não existe como fato, mas como possibilidade. O Container não é o mundo, mas a condição de possibilidade do mundo.

Este segundo artigo emerge como continuidade lógica desse fluxo ontológico e propõe um novo princípio complementar: A Forja.

Se o Container corresponde ao plano do possível, a Forja representa o plano do devir. É nela que a potência começa a se atualizar. Não se trata ainda da realidade objetiva, mas do processo pelo qual o ser humano, por meio da consciência, organiza o caos das possibilidades e o converte em forma inteligível.

A Forja é, portanto, o domínio da mediação entre o que pode ser e o que será.

Podemos compreendê-la como o exercício ativo da imaginação criadora — não enquanto devaneio, mas como faculdade estruturante da experiência. É o espaço interno onde ideias são selecionadas, valores são hierarquizados, imagens são organizadas e intenções são impregnadas de sentido. Tudo aquilo que um dia se tornará realidade começa como forma pensada.

Nesse sentido, a Forja expressa um poder fundamental do humano: o poder de antecipar o real.

Nada que exista no mundo histórico surgiu sem antes ter sido concebido. Toda obra, toda instituição, toda tecnologia, toda organização social, toda ação deliberada foi primeiramente estruturada no interior da consciência. A realidade empírica é sempre posterior à realidade ideal.

A tradição simbólica compreendeu essa dinâmica muito antes da filosofia moderna. O gesto do artesão que trabalha a matéria bruta, presente em diversas escolas iniciáticas, ilustra com precisão essa passagem da potência à forma. Na Maçonaria do Rito Escocês Antigo e Aceito, o maço que golpeia o cinzel não cria a pedra, mas revela sua forma latente. O trabalho não acrescenta essência — ele atualiza aquilo que já estava contido em possibilidade.

O Container oferece o intangível, etéreo.
A Forja realiza a forma.

Contudo, esse processo não é moralmente neutro.

Toda ação formadora da consciência imprime uma orientação ao real que está por nascer. O que se forja internamente carrega consigo as disposições afetivas, os valores, as crenças e os impulsos daquele que forja. A realidade não emerge apenas da razão, mas da totalidade psíquica do indivíduo.

Aqui se revela a dimensão ética da Forja.

Pensar não é um ato inofensivo. Sustentar imagens mentais, alimentar narrativas internas, cultivar emoções recorrentes são formas silenciosas de construção do mundo. A consciência é uma oficina contínua, na qual a realidade futura está sendo moldada a cada instante.

Por isso, aquilo que se estrutura nesse plano encontrará no Container todos os elementos necessários para consolidar-se. Uma vez suficientemente organizado, atravessará o limiar da manifestação e se tornará experiência concreta, produzindo efeitos coerentes com sua origem.

Se forjado a partir da lucidez, da ordem interior e da abertura ao real, dará origem a estruturas de crescimento, harmonia e integração — o que simbolicamente se associa à Luz.
Se moldado pelo medo, pela fragmentação psíquica, pelo ressentimento ou pela inconsciência, materializará conflito, repetição e sofrimento — as Sombras.

A Forja não escolhe.
Ela apenas obedece àquilo que a consciência sustenta.

Assim, compreender esse princípio é reconhecer que o ser humano não é apenas um espectador da realidade, mas um agente ontológico de sua produção. O mundo que se vive é, em larga medida, o reflexo organizado daquilo que foi longamente construído no interior.

No terceiro e último artigo desta série, examinarei o momento em que o conteúdo forjado rompe o plano interno e se converte em acontecimento, experiência e fato — completando o ciclo fundamental da existência consciente:

potência (O Container) → atualização (A Forja) → manifestação (O Reino).

Por Rogério Mauri, 33


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